sexta-feira, 19 de agosto de 2011

não sou capaz de intitular esse texto

No dia 11 de agosto, minha avó, uma senhora de 80 anos portadora de osteoporose avançada, deu entrada no HPS com uma fratura no colo do fêmur e outra na cabeça do úmero. A segunda é superficial, mas a primeira necessita de cirurgia e colocação de prótese. A forma como as fraturas aconteceram é bastante nebulosa mas não vem ao caso agora. A questão é: no HPS eles não fazem outro tipo de cirurgia que não as de emergência - compreensível -, portanto lá está ela, desde então, atirada em uma cama, esperando uma vaga em outra hospital para realizar o procedimento pelo SUS.

Minha avó não é a única. Existe uma fila de pessoas na frente (e uma ainda maior atrás) aguardando atendimento. Enquanto isso, Dona Maria, com uma dor absurda nos arredores da articulação coxo-femoral precisa aguentar no osso (literalmente) a dor do sacolejo de troca de fraldas 4 vezes ao dia porque não pode se mover para ir ao banheiro. A fratura em si não está sendo tratada, nem há o que se possa fazer sem a cirurgia. No máximo recebe um bom tratamento dos enfermeiros-anjos de plantão, um remédio para a dor, outro para a circulação e alguma fisioterapia. Ou seja: o básico para que ela não morra esperando. (o que não é exatamente verdade porque quanto mais o tempo passa, mais chance de ocorrer embolia pulmonar, até onde eu sei)

Imagino que os profissionais da saúde estejam, de fato, com as mãos atadas. Não me impressiona a situação. Eu mesma já trabalhei em um hospital que atendia pelo SUS e sei bem como funciona. Mas isso faz dez anos e naquela época era velho oeste. Só que quando a coisa tá nesse nível, só pode melhorar. Pelo menos a indignação era geral. Agora não é bem assim. Existe um sistema de vagas, as pessoas entram na fila e são classificadas por idade, gravidade da desgraça e localização geográfica, pelo que eu entendi. A minha avó, por exemplo, é prioridade. Por ser prioridade, ela espera apenas entre 10 e 30 dias para receber o atendimento. Agora imaginem vocês quanto tempo espera uma pessoa jovem, sem risco de vida e que mora na região metropolitana? Um conselho? Arranca o que te incomoda e segue a vida, porque quando te atenderem provavelmente a amputação vai ser a solução de qualquer forma.

E aí que reside o problema: o sistema é lindo, o sistema é justo. Só que o sistema não funciona. Ai de quem abrir a boca para reclamar. Porque a postura das assistentes sociais do HPS é constranger o familiar, para que ele se sinta um crápula egoísta por se preocupar com o paciente em questão. É evidente que eu não quero que a minha avó passe na frente de outras senhorinhas convalescentes. Eu quero que TODO MUNDO receba atendimento no momento em que necessita, porque ESSE é o DIREITO do cidadão. "Ah, mas é normal esperar, tem gente que espera um mês". Sim, é normal. E é ERRADO. O sistema é falho, o sistema é péssimo. Ele é justo porque não tem mais gente furando a fila? Sim, justíssimo, mas ele só serve pra organizar o caos. E pra institucionalizar o comodismo na saúde pública. Então é difundido o pensamento do "calma, tá tudo bem agora" dentro da hospital quando o correto seria que, mesmo e justamente por estarem impotentes, os profissionais incentivassem que as pessoas procurassem os seus direitos. Porque elas os têm.

Não acredito, e não acredito mesmo, que não haja solução pra isso. Sou leiga? MUITO. Mas que eu saiba não precisa prova de conhecimentos em gestão pública pra votar, portanto não precisa pra reclamar também, não é? Não tem vaga em hospital público? Paga pro particular, ué. Faz a fila andar. Não estamos falando de fila de transplante de órgãos, que depende de gente morrendo pra se movimentar. Estamos falando da necessidade de espaço físico, material e equipe especializada. E tudo isso se consegue com $$$$. O slogan de todo candidato a segurar essa bronca é "saúde e educação em primeiro lugar", não é verdade? Estamos todos de acordo, não estamos? Então cortem gastos supérfluos. Acabem com as sessões solenes (que têm esse nome por serem solenemente ignoradas pela população, rá), fica até chato essa pompa toda diante de tanta gente gemendo. Cortem a verba do "vale-terno", fica deselegante, e até meio brega, usar traje esporte fino na casa do povo, não orna. Parem de gastar esse absurdo de papel e energia. Vamos dizer que minhas sugestões sejam aceitas. Não dá nem pra pagar tomografia pra gurizada, né?

Não interessa. O pensamento voltado para o coletivo é muito lindo, principalmente na teoria. Mas na prática é bem comum servir como desculpa pra inércia. "Que adianta resolver o problema de um e deixar tanta gente de fora?". E enquanto se corre atrás - ou se espera - por ações grandiosas, nada é feito. Mudem o foco. Realmente pensar em migalhas diante de uma desgraça tão grande pode parecer pouca coisa. Mas uma pessoa, uminha que seja, que tem a vida destruída, ou terminada, esperando numa fila dessas é muito. Muito mesmo.